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Entre rótulos e realidades: por que o diagnóstico do TEA na vida adulta importa

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Categoria: Diversidade

Durante muito tempo, o imaginário coletivo sobre o autismo foi construído a partir de extremos: ou a pessoa “não fala, não interage”, ou é um gênio excêntrico digno de série de TV. No meio desse caminho — onde está a maioria das pessoas com esse diagnóstico — sobram dúvidas, equívocos e, não raro, silêncio. É nesse espaço que histórias como a de Américo Augusto Cantos Rosa, Coordenador de Folha de Pagamento do TJMSP, ajudam a iluminar o que ainda passa desapercebido.

Desde a adolescência, Américo percebia que havia algo diferente na forma como experimentava o mundo. Dificuldades em se adaptar a mudanças de rotina, desconforto em interações sociais, incômodo intenso com ruídos cotidianos. Nada disso, de maneira isolada, parecia “suficiente” para levantar suspeitas. Por muito tempo, foi interpretado por ele mesmo como traço de personalidade.

Esse é um ponto-chave: o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não se apresenta de forma única. Ele é, como o nome diz, um espectro. Isso significa que características podem variar em intensidade, combinação e impacto na vida de cada pessoa.

Quando “é só o jeito da pessoa” pode ser mais do que isso?
Uma das barreiras mais comuns para o diagnóstico é justamente a naturalização de sinais. Dizer que alguém “é quieto”, “prefere ficar sozinho”, “não gosta de barulho” ou “é muito focado” pode parecer algo muito distante de um possível diagnóstico, e muitas vezes é. Em outros casos, quando sobrepostas, essas características fazem parte de um conjunto maior.

No caso de Américo, havia também interesses altamente específicos e intensos, como a dedicação quase exclusiva a determinados jogos ou ao violão, explorados com profundidade e interesse na compreensão da lógica por trás do funcionamento. Havia desde cedo a seletividade alimentar, com forte rejeição a determinadas texturas, assim como um esforço constante para lidar com situações sociais simples, como fazer uma ligação telefônica.

Esse esforço, com o tempo, se tornou quase invisível — resultado do chamado mascaramento, um mecanismo aprendido por muitas pessoas com TEA para se adaptar socialmente. “Antes de qualquer interação, eu fico imaginando o que a pessoa vai falar, tentando prever o que vai acontecer”, relata.

Nada disso o impediu de estudar, trabalhar, construir uma trajetória sólida. E é justamente por isso que o diagnóstico pode demorar.

O mito do “autismo leve”
Expressões como “autismo leve” são comuns, mas imprecisas. Elas costumam minimizar desafios reais vividos por pessoas que, externamente, parecem viver “sem dificuldades”.

O mascaramento ajuda a explicar essa percepção. A pessoa aprende a criar roteiros mentais, ensaiar falas, evitar situações que podem gerar sobrecarga. Funciona até certo ponto, mas cobra um preço alto, geralmente invisível.

Américo descreve esse processo com clareza ao relatar que, quando algo foge do que ele planejou, surge o bloqueio. “Se sai do roteiro, eu travo”, resume. Logo, dizer que alguém “nem parece autista” ignora todo esse trabalho interno, que é muitas vezes bastante desgastante.

Um ponto que ajuda a compreender melhor o espectro é a noção de níveis de suporte. Em vez de classificar o autismo como “leve” ou “grave”, o que se observa é o quanto aquela pessoa precisa de apoio no dia a dia. No nível de suporte 1, há maior autonomia, mas isso não significa ausência de dificuldades — muitas delas são internalizadas, exigem esforço constante e podem passar desapercebidas. No nível 2, já existem demandas mais evidentes de apoio, com impactos mais significativos na comunicação, na flexibilidade e na adaptação a contextos sociais. No nível 3, essas necessidades são ainda mais intensas e contínuas, exigindo suporte substancial ao longo da vida. Essa forma de entender o TEA evita simplificações e ajuda a reconhecer que cada pessoa tem um funcionamento próprio. Não se trata de menor ou maior intensidade, mas de uma lógica diferente, e que, por isso, demanda níveis distintos de suporte e compreensão.

Altas habilidades ou outra forma de perceber o mundo?
Outro equívoco frequente é confundir sinais do espectro com “superdotação” de forma automática — ou usar essa ideia como um rótulo mais confortável.

No caso de Américo, habilidades marcantes, como memória para números e raciocínio lógico, poderiam facilmente ser lidas apenas por esse viés. Mas ele conta que seu próprio desempenho escolar mostra como essa leitura simplificada não dá conta da complexidade. “Eu não tinha um desempenho alto porque aquela dinâmica não me despertava interesse. Eu aprendi que precisava tirar nota para passar, então eu decorava”, explica.

Pessoas no espectro podem, sim, apresentar altas habilidades em áreas específicas. Isso não anula desafios em outras dimensões da vida. Reduzir o quadro a um “dom” pode invisibilizar as necessidades legítimas de adaptação e suporte.

O diagnóstico como chave de leitura, não como estigma
No caso de Américo, a decisão de buscar avaliação veio com o acúmulo de experiências. O processo envolveu acompanhamento psiquiátrico e avaliação neuropsicológica ao longo de semanas. O resultado não foi uma mudança de quem ele é, mas transformou a forma de entender sua própria trajetória.

Situações antes vistas como falhas pessoais passaram a fazer sentido. A dificuldade de permanecer em ambientes barulhentos, a necessidade de rotina, o desconforto social. Ele passou a identificar essas características não como algo a ser “corrigido”, mas como aspectos que podem ser compreendidos e manejados.

“Se eu tivesse descoberto isso na infância, teria facilitado muito mais a minha vida”, afirma. Para ele, o diagnóstico precoce também teria permitido mais compreensão das pessoas ao redor e acesso a suporte adequado.

Esse é um dos principais ganhos do diagnóstico: ele oferece linguagem e contexto, permitindo que a pessoa deixe de se cobrar por não se encaixar em padrões que não consideram o funcionamento diferente de seu sistema neurológico.

E para quem está ao redor, o que muda?
O TEA é uma questão coletiva, não só individual. Ambientes de trabalho, familiares e sociais podem ser mais ou menos acolhedores dependendo de pequenas atitudes.

No espaço profissional, por exemplo, desafios podem surgir em tarefas que exigem interação constante e espontânea. “Atender público não é algo natural para mim”, relata Américo. Em contrapartida, quando há compreensão, é possível construir estratégias: delegar funções, organizar fluxos, reduzir sobrecargas desnecessárias.

Ele também aponta o impacto de interações sociais frequentes e superficiais, muitas vezes vistas como triviais. “Não é nem que seja algo ruim. É só o fato de ter que interagir o tempo todo. Isso gera toda uma carga mental”, explica.

Algumas práticas fazem diferença:
Evitar julgamentos simplistas: Interpretar recusa a eventos sociais como desinteresse ou arrogância pode ser um erro;
Respeitar limites sensoriais: Ruídos, luzes ou ambientes muito estimulantes podem gerar sobrecarga real;
Ser claro na comunicação: Instruções objetivas e previsibilidade ajudam a reduzir ansiedade, e no ambiente profissional, até mesmo o retrabalho;
Não exigir “esforço” como solução universal: Há diferenças neurológicas que não se resolvem com vontade;
Abrir espaço para ajustes: Pequenas flexibilizações podem ter grande impacto na qualidade de vida e desempenho.

Um convite à escuta
Falar sobre autismo ainda exige romper com imagens prontas. Histórias como a de Américo mostram que o espectro não é um retrato fixo, mas uma multiplicidade de formas de existir.

Como ele resume em uma analogia simples: “É como se o mundo funcionasse em um sistema, e a pessoa autista em outro. Não é errado, é só diferente”. Neste contexto, a busca do diagnóstico não é se encaixar em um rótulo, mas, muitas vezes, sair de um — o da incompreensão por parte do outro e até de si mesmo.

Para quem se reconhece em alguns desses sinais, ou convive com alguém que pode estar nesse processo, a informação é o primeiro passo. O próximo pode ser procurar orientação profissional. Confira a Cartilha do Conselho Nacional de Justiça, que pode auxiliar na compreensão sobre o tema.

Quando perguntado sobre o recado que gostaria de deixar para si mesmo no passado, Américo é direto — e generoso com quem ainda está nesse caminho: “Seja você mesmo e não tenha vergonha. Se acharem você esquisito, sinta orgulho”. E completa: “Se você desconfia, vá atrás. É melhor entender do que passar a vida inteira tentando se encaixar e sofrendo com isso”.

Américo Augusto Cantos Rosa, Coordenador de Folha de Pagamento do TJMSP, está sentado à sua mesa em frente ao computador. É um homem branco de cabelos curtos lisos, com franja à frente, de cor castanha. Usando uma camisa xadrez azul e branca, ele sorri, com as mãos apoiadas à frente do corpo, sobre a mesa. Há um óculos apoiado no canto, sobre um papel impresso.

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Auditório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com plateia sentada assistindo a um painel institucional. No palco, sete participantes — em sua maioria homens de terno — estão acomodados em poltronas claras, dispostos em semicírculo, enquanto um deles fala ao microfone. À esquerda, uma mediadora acompanha a discussão com anotações. Ao fundo, há um painel de madeira com a sigla “CNJ” e uma tela exibindo a imagem ampliada de um dos palestrantes. A plateia, composta por pessoas em trajes formais, observa atentamente, algumas registrando o momento com celulares. O ambiente é bem iluminado e organizado, típico de evento oficial ou seminário sobre justiça e tecnologia.

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Categoria: Direitos Humanos

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