Emília começou a perceber que havia alguma coisa errada quando o irmão passou a evitar conversas sobre dinheiro.
Primeiro, foram pequenas mudanças. Ele parecia mais ansioso, dormia menos e estava sempre olhando o celular. Depois, vieram os pedidos de dinheiro emprestado, acompanhados de explicações que pareciam fazer sentido isoladamente: uma conta inesperada, um gasto que sairia no mês seguinte, uma oportunidade de recuperar o que havia perdido.
Até que Emília descobriu que o irmão estava apostando em bets havia meses, e que parte do dinheiro que ele dizia precisar para outras despesas estava sendo usada nas apostas.
A história é fictícia, mas situações como essa ajudam a mostrar que os efeitos da ludopatia podem ultrapassar a pessoa que joga. O comportamento aditivo pode atingir relações familiares, planejamento financeiro, trabalho, sono, saúde emocional e a própria confiança entre as pessoas.
No caso das apostas, existe ainda uma particularidade: o jogo está disponível no celular, a qualquer hora, e é frequentemente apresentado em propagandas associadas a diversão, sucesso e ganhos. A facilidade de acesso pode tornar mais difícil perceber quando uma atividade de lazer passou a ocupar um espaço prejudicial na vida.
Quando o jogo começa a ocupar espaço demais
Emília não saberia dizer exatamente quando o irmão passou de alguém que apostava ocasionalmente para alguém que precisava apostar. E esse é justamente um dos pontos importantes sobre a ludopatia.
Segundo o médico Mario Henrique Camargos de Lima, responsável pelo Centro Médico do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo (TJMSP), não é a frequência com que uma pessoa joga que determina, por si só, a existência de um comportamento aditivo. O que merece atenção são as consequências e o espaço que o jogo passa a ocupar. Este tema é abordado pelo médico no vídeo abaixo:
Alguns sinais podem indicar que há um problema: dificuldade para controlar os valores apostados, tentativa recorrente de recuperar perdas, gastos acima do planejado, prejuízos financeiros, alterações no sono, abandono de atividades e responsabilidades e a necessidade de esconder ou mentir para continuar jogando.
Para a família, os sinais podem aparecer de outras formas:
– Pode ser a conta que deixa de ser paga;
– O dinheiro que desaparece antes do fim do mês;
– Um empréstimo que nunca é devolvido;
– A discussão provocada pela descoberta de uma nova dívida;
– A pessoa que deixa de participar de um compromisso familiar porque está acompanhando uma aposta;
– Ou a quebra gradual da confiança causada pelas mentiras e omissões.
Em alguns casos, a própria família pode acabar assumindo consequências financeiras ou tentando controlar o comportamento da pessoa, o que pode gerar desgaste, culpa, conflitos e sensação de impotência.
A ludopatia é uma condição de saúde, não uma falha moral
Ludopatia não é desvio de caráter. É uma condição de saúde que pode exigir tratamento. Reconhecer isso também muda a forma como a família pode agir. Em vez de apenas cobrar, julgar ou esconder o problema, é possível incentivar a busca por ajuda e estabelecer estratégias para reduzir os danos.
Não é preciso esperar que uma dívida se torne impagável, que um relacionamento termine ou que o trabalho seja prejudicado para procurar orientação. O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Entre as abordagens utilizadas está a terapia cognitivo-comportamental, que pode ajudar a pessoa a identificar padrões relacionados ao comportamento e desenvolver estratégias para lidar com eles.
Também podem ser adotadas medidas práticas para dificultar o acesso às apostas e aos recursos utilizados para jogar. Uma delas era a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, disponibilizada pelo Governo Federal, que permitia solicitar a autoexclusão de plataformas de apostas autorizadas.
O apoio de familiares e pessoas de confiança também pode ser importante. Isso não significa assumir o controle da vida da pessoa ou tentar resolver sozinho um problema que requer acompanhamento profissional. Significa ajudar a criar condições para que ela consiga dar o primeiro passo. Foi o que Emília tentou fazer quando percebeu que o irmão não precisava de mais uma cobrança, mas de ajuda para reconhecer o que estava acontecendo. Pedir ajuda também é cuidar.
A história de Emília poderia terminar com uma dívida quitada ou com o aplicativo de apostas apagado do celular. Mas o enfrentamento da ludopatia não se resume a uma dessas medidas. O primeiro passo é reconhecer que existe um problema. No TJMSP, o Centro Médico está à disposição para acolher servidores(as) e magistrados(as) que estejam enfrentando dificuldades relacionadas ao jogo e orientar sobre os caminhos possíveis para buscar atendimento.
O tema integra os conteúdos propostos pelo Comitê Gestor Local de Atenção Integral à Saúde do TJMSP, que promove ações de conscientização e cuidado com a saúde. Assista ao vídeo com o médico Mario Henrique Camargos de Lima e entenda como identificar sinais de alerta, quais impactos o comportamento aditivo pode provocar e por que buscar ajuda é parte importante do cuidado.






