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O peso oculto do preconceito na vida de Emília

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Categoria: Equidade Racial

A chegada de maio deveria ter sido motivo de celebração na vida de Emília. Em poucas semanas, ela viveria o ápice de suas conquistas profissionais, intelectuais e esportivas. No entanto, o calendário que deveria marcar vitórias transformou-se em um catálogo doloroso de como o racismo implícito ainda opera na sociedade.

Tudo começou na primeira semana do mês. Atleta de tênis, Emília comemorava a vitória em um campeonato interno após meses de preparação intensa e estudo tático de suas adversárias. Ao sair da quadra, foi parabenizada por um associado do clube, que comentou: “Parabéns pela vitória, Emília! Mas também, com essa força física e essa genética privilegiada que vocês têm, fica mais fácil, né? É uma vantagem natural”.

Dias depois, veio a convocação para a banca de heteroidentificação de um concurso público para o qual ela vinha se dedicando exaustivamente. Vestindo um blazer elegante para a ocasião solene, Emília sentou-se diante dos avaliadores. O clima técnico foi quebrado por um comentário sussurrado na mesa, mas que Emília pôde escutar: “Com essa roupa e essa postura, se passar na cota, vai parecer fraude. Esse pessoal hoje em dia está melhor do que a gente”. Logo em seguida, outro técnico tentou “suavizar” o ambiente com uma piada: “Olha, com esses traços finos e o cabelo alinhado, se a gente fechar o olho, até confunde com a ampla concorrência.”

Na terceira semana, já empregada, os excelentes resultados que entregava renderam-lhe uma promoção. Porém, na reunião de feedback diante de toda a equipe, o diretor disparou entre risos: “Parabéns, Emília! Agora só falta dar uma ‘relaxada’ nesse cabelo para combinar com o novo cargo na diretoria. A gente respeita sua autenticidade, mas você sabe como é o padrão da empresa”.

O desfecho desse ciclo ocorreu nos últimos dias de novembro, no saguão de um teatro onde Emília seria a palestrante principal de um painel. Enquanto revisava suas anotações no celular, uma outra pessoa se aproximou, estendeu as chaves do carro e ordenou: “Moça, por favor, avise no valet que já estou voltando.” Ao notar o crachá de palestrante no blazer de Emília, a pessoa recolheu a mão com uma risada nervosa. “Ah, me desculpa! É que, com esse rosto simpático de quem ajuda a gente, eu te confundi com a recepção.”

Esses episódios revelam como o racismo não se manifesta somente em agressões explícitas, mas também em micro agressões e estereótipos que deslegitimam conquistas e tentam enquadrar pessoas negras em papéis subalternos:

O comentário na quadra de tênis evidencia o racismo interpessoal baseado em estereótipos biológicos, que anula a dedicação, a inteligência e o preparo estratégico da pessoa negra ao atribuir seu sucesso exclusivamente a uma suposta “força física natural”.

As falas dos técnicos na banca de heteroidentificação expõem o racismo institucional, ao exigir que a pessoa negra performe vulnerabilidade social para validar seu direito às cotas, ignorando a diversidade fenotípica e deslegitimando sua conquista intelectual.

A fala do diretor, mascarada por risos e “elogios”, representa o racismo recreativo, onde o humor é utilizado para exigir o embranquecimento estético e punir identidades negras no ambiente corporativo.

O caso da pessoa no teatro revela o racismo estrutural, que associa automaticamente pessoas negras a funções de serviço, negando-lhes o direito de pertencer a espaços de prestígio como iguais. Situações como as vividas por Emília fazem parte de uma realidade que muitas vezes passa despercebida, mas que contribui diretamente para a manutenção de desigualdades. É por isso que esse tema diz respeito a todos nós, não somente a quem sofre.

Para transformar essa consciência em atitude prática e construir ambientes verdadeiramente inclusivos, o TJMSP convida magistrados(as), servidores(as) e colaboradores(as) a participarem da Ação de Sensibilização “Letramento Racial no Poder Judiciário”, que ocorrerá no dia 25/6, às 14h no Auditório do edifício-sede. A iniciativa abordará o racismo individual e institucional e seus vieses inconscientes, com uma oficina para testar a percepção de situações, com análise de fatos reais, ressaltando o compromisso institucional com a questão racial. Também faz parte da programação do Comitê de Promoção da Equidade Racial (CPER) a Ação de Sensibilização “Caminhos para a Equidade – Relações Raciais e o Cotidiano Institucional”, que será realizada em 22/6, às 14h.

Participe, dissemine esse conhecimento e faça parte dessa mudança. Refletir, aprender e agir são passos fundamentais para garantir que trajetórias brilhantes como a de Emília sejam celebradas exclusivamente por seus méritos, livres das barreiras invisíveis do racismo.

Ícone oficial do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 da Organização das Nações Unidas, com fundo vinho. No canto superior esquerdo, o número
Ícone oficial do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16 da ONU, com fundo azul. No canto superior esquerdo, o número
Ícone oficial do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 18 da ONU, com fundo marrom. No canto superior esquerdo, o número

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Categoria: Institucional

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