O celular de Emília vibrou pela décima vez enquanto ela empurrava o carrinho de compras pelo corredor do supermercado. Era uma chamada de vídeo de seu marido. Ao atender, ela direcionou automaticamente a câmera para os produtos, uma prova silenciosa de sua localização para acalmar a voz desconfiada do outro lado. “Demorou por quê? Quem está na fila com você?” Aquela vigilância constante era o preço que pagava por tentar manter um resquício de vida normal — como o café com as amigas na semana anterior, que resultou em dias de silêncio punitivo e frases como “se você me amasse, sua prioridade seria a nossa casa”.
No caminho de volta, o peso na mente de Emília não era apenas o das compras. Era também o da carta de aprovação para um novo emprego, guardada no fundo da bolsa, que ela já sabia que teria de recusar. O cartão de sua conta bancária continuava retido na gaveta dele, sob o pretexto de “administrar as finanças do casal”, acompanhado sempre pelo mesmo aviso irônico: “Para que trabalhar fora se eu cuido de tudo? Você vai gastar mais com transporte do que vai ganhar”.
Ao entrar em casa, a rotina do medo exigia pressa. Emília guardou as compras, apagou as luzes desnecessárias e entregou o celular para a vistoria obrigatória de mensagens e redes sociais. Mesmo com tudo em ordem, o tom de voz preencheu a sala logo nos primeiros passos dele: “Por que a luz da garagem ficou acesa? Você gasta o meu dinheiro como se nascesse em árvore”.
O que se seguiu não foi uma discussão, mas um monólogo de humilhações que culminou no som do prato de porcelana arremessado contra a parede. Os estilhaços foram só o começo. Apertos violentos em seu braço seguidos por ameaças sussurradas bem próximas ao seu rosto. Mais uma marca que o casaco de mangas longas precisaria esconder ao sair de casa no dia seguinte.
Embora o relato de Emília seja fictício, ele traduz a rotina de medo que milhares de mulheres enfrentam diariamente. A violência doméstica se manifesta em diferentes formas — psicológica, financeira e física — e muitas vezes acontece em silêncio, dentro dos lares.
Os dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP) confirmam a gravidade: no primeiro trimestre de 2026, o estado de São Paulo registrou um aumento de 14,3% nos casos de violência doméstica, totalizando mais de 85 mil ocorrências. É uma notificação a cada 90 segundos.
Para enfrentar essa realidade, o governo estadual ampliou a rede de proteção com mais de 300 Delegacias e Salas DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), reforço de 650 policiais, além do desenvolvimento do aplicativo SP Mulher Segura, com presença de botão do pânico e monitoramento eletrônico de agressores, e operações especiais como a Damas de Ferro III, que resultou na prisão de mais de 2 mil homens em três meses.
Mas as iniciativas não se limitam ao governo estadual. Conheça algumas de outras entidades:
Prefeitura de São Paulo:
Programa Abrigo Amigo: iniciativa voltada ao transporte público. Entre 20h e 5h, as telas interativas de vários pontos de ônibus convidam mulheres que estão sozinhas a iniciar uma chamada de vídeo. Uma atendente treinada faz companhia virtual até o ônibus chegar e pode acionar a polícia imediatamente em caso de risco.
Programa Tem Saída: focado na autonomia financeira, o programa oferece um processo seletivo diferenciado e humanizado em empresas parceiras, por meio do Cate (Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo), garantindo emprego e independência econômica para a vítima.
Serviço Casa de Passagem para Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar: acolhimento provisório de 15 dias (podendo ser prorrogáveis) para mulheres e seus dependentes que precisaram deixar o lar devido à violência física, psicológica ou patrimonial, sem a necessidade de risco iminente de morte.
Tribunal de Justiça de São Paulo:
Projeto Fênix: oferece reparação estética, ortopédica e odontológica gratuita para sobreviventes de violência de gênero, ajudando a resgatar a autoestima e a qualidade de vida.
Carta de Mulheres: um formulário online onde a vítima (ou qualquer pessoa que queira ajudar) pode relatar o caso de forma segura. Uma equipe especializada do Poder Judiciário responde com orientações jurídicas e práticas sobre o que fazer.
Além disso, em âmbito federal, a Lei 14.674 de 2023 prevê a concessão de um auxílio financeiro para moradia, determinado por um juiz, para mulheres afastadas do lar que se encontram em situação de vulnerabilidade social e econômica.
Em caso de suspeita ou confirmação de violência, ligue para o Disque 180. A ligação é gratuita, confidencial e funciona 24 horas por dia. Em situações de emergência imediata, ligue para a Polícia Militar (190). Reafirmamos o compromisso com o combate à violência de gênero e com a defesa dos direitos humanos, lembrando que proteger mulheres é proteger a dignidade e a justiça em toda a sociedade.









